"O olho do tempo", Salvador Dalí
TEMPO: o drama/alíbi do sec.XXI
“Estou cheio de pressa. Não posso falar muito. Diz-me apenas a que horas passo aí para apanhar as minhas coisas.”
“Nem isto podes fazer com calma? Já viste que no final é tudo uma questão de tempo? De minutos, segundos, horas?”
“Deixa-te de tretas. Nem todos temos a tua sorte. Ao contrário de ti eu não disponho de tempo para me dar ao luxo de desperdiçá-lo. Não o comando a ele, ele comanda-me a mim !”
“És ridículo! Não te desculpes com o tempo. Nous sommes ce qu´on fait meu querido... Não és tu que dizes adorar Sartre ? De tanto ler bem que podias ter aprendido alguma coisa.”
“Já percebi que hoje estás para discussões, mas eu não estou para isso. Como te disse tenho pouco tempo. A que horas posso passar ai? A partir das oito posso de certeza, senão só se passar por ai por volta da hora do almoço.”
“Vem quando quiseres. Está tudo como deixaste. Se eu não estiver em casa a D. Isilda está de certeza e dá-te as tuas coisas.”
“Está certo. Passo aí por volta das oito e um quarto. Aproveito e levo-te os cd´s que tenho no carro. Olha avisaste o João que eu não te vou acompanhar ao casamento?”
“Já o avisei. Ele disse que tem mesmo pena que não vás. Ainda por cima avisar assim sem mais, em cima da hora... Com esta historia do casamento mal respira, diz que não tem tempo para nada. Como sempre falta de tempo... Em vez de crédito, os Bancos deviam conceder minutos ás pessoas com uns spreads mínimos!”
“Talvez seja o negócio do futuro, quem sabe? Bom, tenho uma reunião agora e já estou atrasado. Então até logo. Se te lembrares de mais qualquer coisa que não te tenha devolvido diz. Vai ser complicado encontrar outro dia para passar aí. Beijinhos.”
Desligaram.
Ele guardou o telemóvel no bolso. Ela atirou o dela para cima do sofá. Ele seguiu lentamente até ao carro e sentiu-se aliviado. Ela acendeu um cigarro e fumou-o languidamente, pensando que tinha conseguido fazê-lo sentir-se culpado. Afinal não havia reunião nenhuma. Ela até tinha assuntos para tratar, mas estava sem cabeça.
Agora tinham todo o tempo do mundo, mas sentiam-se incapazes de fazer seja o que for.“Não faz mal”, pensaram, “o que não se fizer hoje faz-se amanhã... se tiver tempo”.
sexta-feira, setembro 10, 2004
quarta-feira, setembro 08, 2004
segunda-feira, setembro 06, 2004
O prazer da leitura...
Fotografia de ARMANDO MAIA CABALLERO Y SERÔDIO -Miradouro de Santa Luzia,1959
Tesouros que se encontram viajando , fora de horas, pela blogosfera portuguesa...
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domingo, setembro 05, 2004
Relato de uma advogada-estagiária...
Bom, este é o meu primeiro fim-de-semana como trabalhadora. “Não deverias estar a trabalhar? Afinal a menina não trabalha por conta de outrem, a menina trabalha como independente. Não há cá fins de semana para ninguém”, disse-me o Doido hoje ao telefone.
Como se engana. Ainda que trabalhe num negócio que herdarei por via familiar, que cómoda é cadeira do estagiário!
Este ser estranho, assexuado, perdido num mundo de adultos eficientes e implacáveis, que não tem capacidades mentais, intelectuais ou sequer emocionais para assumir preocupações ou responsabilidades à séria.
Que faz então este pobre desgraçado? Vai para a borga, bebe para esquecer e ilude-se dizendo que será sempre assim: trabalhito durante a semana, party ao fim de semana, sem nunca desmorecer, sem nunca perder os hábitos de estudante.
Enfim... divagações á parte, gostei da primeira semana.
Perdida entre folhas e processos, finjo estar á vontade com tudo aquilo. Afinal a média nem foi das piores e a malta é suposto perceber daquela treta.
Três dias de trabalho são suficientes para que surjam os primeiros sintomas de uma doença rara, mas crónica.
Sintomas esses que são: obsessão doentia com a hora de almoço ( quer se tenha fome ,ou não ,há que ir comer qualquer coisita ),fixação por navegar na internet e ver os mails mais com uma honrosa média de 30 vezes por dia (nunca há nenhum novo) diarreia mental a partir das 18 h, divagações monetárias (“ com este dinheiro já posso comprar isto , isto, aquilo, o outro”) e alucinações com uma noite mega activa, cheia de actividades produtivas e convívio com os amigos.
Outra aventura interessante é a escolha dos “kits de trabalho”. Sim, amigos, porque a primeira coisa a desaparecer do horizonte quotidiano são os ténis confortáveis, que passam a ser substituídos por maravilhosos saltos altos, que de bonito ou confortável pouco têm.
Isto não sucede sempre...acho mesmo que é um fenómeno muito peculiar dos cursos de Direito, Economia e Gestão, onde aquilo que somos pouco importa: o que vale é o que aparentamos ser e quanto mais aparentamos MELHOR!
E eis que assumo a postura mas a coisa acho que não corre lá muito bem: tropeço cada dois minutos, ando desajeitadamente, a roupa não me faz parecer mais adulta, mas sim mais criança e perdida.
Falar ao telefone com os “clientes” ( esta designação transtorna-me) é uma experiência alucinante onde o raciocínio se desenvolve à velocidade da luz: não errar o nome, falar pausadamente, ser clara, ouvir com atenção e acima de tudo, não dizer “beijinhos” no final da conversa...
Que admirável mundo novo! E pensar que se acabaram as épocas de exame...
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sábado, setembro 04, 2004
Ossétia do Norte
Hoje não se discute, não se analisa o inimigo ou se prepara uma defesa, não se fixam datas ou se defendem ideais.
Sob a máscara falsa de religião ou sob um hipócrita motivo político ( ou melhor, motivo económico), mata-se impiedosamente, sem qualquer vestígio de respeito pela vida humana.
Sem sentido, sem coerência, sem honra, sem olhar a credos, idades ou sexos.
Ao invés de ser o bem jurídico de valor supremo, a vida perde todo e qualquer valor, os corpos ficam sem rostos, os rostos convertem-se em números e os nomes apenas servem para figurar nas listas negras que se afixam em malfadadas paredes.
O terrorismo instalou-se, criou raízes e ganhou um lugar na mentalidade das pessoas.
Não se pode ceder perante ele, mas não há forma de combatê-lo, porque ele ataca de surpresa, trazendo o medo.
Medo... pensava que só as crianças tinham medo. Pensava que uma vez que crescesse, poucas coisas me despertariam medo.
E agora vivo assustada, porque já não há sentido no mundo, tudo pode acontecer a todos.
Toda a Humanidade, sem excepção, é vítima deste horror que veio para ficar e não há Deus que nos salve, dinheiro que nos proteja ou apelido que nos resguarde.
Qualquer um de nós podia ser o gestor do World Trade Centre, que naquele dia apenas recordava as férias de Agosto e se consciencializava que só dentro de um ano, poderia descansar outra vez.
E falando em férias, como podiam aqueles jovens imaginar que Bali era um potencial alvo e que afinal naquela noite o melhor teria sido ficar no hotel a descansar?
Já para não mencionar a C., secretária, que adormeceu e por isso apanhou o comboio seguinte. Nunca chegou à Atocha a tempo...E eles ,pequeninos, iam para a escola...apenas para a escola... Não eram políticos, não eram militares, nem sequer podiam votar...apenas iam para a escola.
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sexta-feira, setembro 03, 2004
quinta-feira, setembro 02, 2004
Borrel con Gran Via
Que medo...já passou um ano e meio desde que fui viver para Barcelona. Agora que me vejo a andar na rua, com a roupa engomada, de saltos altos ( coisa que aboli na primeira caminhada entre as Ramblas e Calle Borrel), preocupada em ganhar dinheiro, dormir bem, fazer exercicio e procurar qualidade de vida numa cidade onde isso cada vez existe menos, esqueço-me daquela altura. Da partilha da casa, das experiências, de passar as tardes ao sol sem preocupações...sim!principalmente sem preocupações.
Um dolce fare niente permanente, regado com muito alcoól e descontração. O tempo não existia, nunca existiu , ou se existia ,não se sentia passar.
A sujeira do quarto da Carla, os fungus da Tats no fogão, as compras da Sara no final do mês, o roubar mel á Joana apenas porque sim! Manas borrel...que saudades...
Os mexicanos...o no mames guey, que chingon y pinches portuguesas... Garota de Ipanema, la vie en rose ("No puedo..."), like a prayer...
Molts petonets a tots...
oh pa... quero voltar...entretanto as horas passam e aqui ando eu num escritório, a fingir que trabalho, a olhar para o ecran á espera de alguma coisa para fazer. E pensar que agora isso incomoda-me! Estar sem fazer nada! hahahaha
Talvez vá ver uma exposição: ouvi dizer que o Richard Hamilton volta ao Macba e que as salas do Museu Picasso já estão finalmente todas abertas.
Talvez vá apenas ao Bairro Gótico escrever.
(pausa...toca o telefone)
"Com certeza...vou já buscar o processo".
Afinal não vai dar para sair agora!
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Balada da Rita
Disseram-me um dia Rita põe-te em guarda
aviso-te, a vida é dura põe-te em guarda
cerra os dois punhos e andou põe-te em guarda
eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou
Galguei caminhos de ferro (põe-te em guarda)
palmilhei ruas à fome (põe-te em guarda)
dormi em bancos à chuva (põe-te em guarda)
e a solidão não erres
e ao chamá-la o seu nome
me vai que nem uma luva
Andei com homens de faca (põe-te em guarda)
vivi com homens safados (põe-te em guarda)
morei com homens de briga (põe-te em guarda)
uns acabaram de maca
e outros ainda mais deitadoso coveiro que o diga
O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu p'ra nada
E um dia de tanto andar (põe-te em guarda)
eu vi-me exausta e exangue (põe-te em guarda)
entre um berço e um caixão (põe-te em guarda)
mas quem tratou de me amar
soube estancar o meu sangue
e soube erguer-me do chão
Veio a fama e veio a glória (põe-te em guarda)
passaram-me de ombro em ombro (põe-te em guarda)
encheram-me de flores o quarto (põe-te em guarda)
mas é sempre a mesma história
depois do primeiro assombro
logo o corpo fica farto
Sérgio Godinho
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terça-feira, agosto 31, 2004
Açores
Não que as memórias se percam... afinal são o único património que levamos connosco para a terra do Além. Mas o tempo passa e deixa mazelas. Não obstante não apagar aquilo que outrora vivemos, vimos ou sentimos, a passagem do tempo pode ter um efeito corrosivo: esbate as cores, minora os sabores e odores, transforma as linhas, contornos e contrastes.
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segunda-feira, agosto 23, 2004
Por acaso...
Será a vida feita de meros acasos, felizes ou infelizes, todos eles aleatórios, desconexos, sem qualquer propósito? Ou devemos acreditar num plano sublime, imaginado por um ser superior, divino e conhecedor, que nos observa cuidadosa e paternalmente, enquanto perseguimos o caminho que, para nós, individualmente foi traçado?
Quanto mais penso acerca da (in)existência de um destino, mais ridícula me sinto...que tema mais batido, mais explorado e divulgado. Tal como uma discussão acerca de uma qualquer crença religiosa ou filiação política, o aborto ou a liberalização das drogas...NÃO CHEGAREI A NENHUMA CONCLUSÃO.
Intriga-me não me ser desvendada a razão de conhecer algumas pessoas e não outras, intriga-me o porquê das opções que não sendo tomadas racionalmente, resultam ser as mais benéficas.
Ao falar de opções não racionais, refiro-me aquelas que tomamos sem dar-nos conta, com as quais fingimos não preocupar-nos.
Aquelas que dizemos não as tomar ( por falta tempo, de paciência , de maturidade), mas a realidade é que as deixamos ao rumo natural das coisas ( ou á Divina Providência! segundo alguns ), estando simultaneamente a tomar a decisão de ficar na mesma.
Ou seja, optamos por não optar e saímo-nos bem com isso. Qual o passo seguinte? Os crentes agradecem ao Senhor, os outros proferem “ Ainda bem que foi assim...era assim que tinha que ser!”
Seremos no fundo marionetas comandadas por um destino matreiro, caprichoso e inteligente, ou simplesmente uns seres complicados e de reduzidas capacidades intelectuais, em busca de uma explicação exógena para tudo, já que nós próprios não podemos viver sem explicações, não obstante de não conseguirmos dá-las?
No fundo procuramos um sentido para as coisas quando ele pode até nem existir. E se existir e nos for dado a conhecer, quem nos garante que o aceitaremos, que ele nos convém?
Por feitio ( e não defeito creio), penso demasiado...na vida, na minha vida, na dos outros, talvez demasiado na dos outros...
E quanto mais envelheço menos certezas tenho, quando mais aprendo mais dúvidas me coloco, quanto mais vejo, menos quero ver.
Se existe destino ou não, se sou manipulada ou manipuladora, se tudo isto é uma ilusão e a vida não é aqui, sabê-lo não me trará sossego ou satisfação. Qualquer conclusão a que chegue atormentar-me-á sempre: se há destino sentir-me-ei impotente e temerei o futuro, uma vez que de antemão me é dito que nada poderei fazer para alterar aquilo que outrora foi escrito. Se não houver e tudo isto for uma desordem caótica e patética, para quê confiar se nada é seguro, para quê tentar aceitar o que nos sucede se nada é lógico?
Bom conselho Chico Buarque 1972
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
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2:00 da manhã
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