sábado, outubro 16, 2004

Cansaço



Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao deus-dará
Deixando os olhos nos meus.

Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.

Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim.

Poema cantado por Amália

quinta-feira, outubro 14, 2004

corte e costura

Nunca gostei de encontros imediatos.
Pertenço aquela raça estranha de pessoas que ao ver um conhecido do outro lado da rua ( leia-se , conhecido. Não me refiro a amigos!), é dominada pela preguiça e timidez .
De certeza que os psicólogos já inventaram um nome para esta patologia .
Ou seja...fujo, finjo que não vejo, não tenho paciência para ir falar, invento artimanhas para não ver e ser vista.
Detesto conversas de circunstância, porque não passam de isso mesmo: daquela circunstância sinistra em que por casualidade nos encontramos naquele preciso momento.
Fico nervosa por não ter muito que contar, irritam-me os silêncios incómodos e tira-me do sério discutir o estado do tempo.
A situação complica-se ainda mais, quando a pessoa a quem vislumbramos não é simplesmente um mero conhecido, mas sim um conhecido que tem um poder sobre-humano de nos irritar.
Muitas vezes por inúmeras e intermináveis razões, muitas outras vezes apenas porque sim.
Hoje tive um desses encontros!
Desses que despertam irritabilidades porque sim.
Mas desta vez a conversa fluiu: fiquei a saber que “ando à paisana”.
Pode parecer estranho este comentário, mas foi exactamente isto que ouvi e passo a citar: “Olá, olá. Por aqui então? Mas a menina está à paisana!”
Como tenho reflexos lentos, fiquei sem perceber e sem responder convenientemente. Mas o meu interlocutor prosseguiu: “ Está vestida de um modo muito descontraído para quem está a trabalhar num escritório de advogados .”.
Urge dizer que se tratava de um rapaz...
Quase em simultâneo o meu cérebro começou a produzir a seguinte lista de questões:
1) É a roupa que faz o Homem ou o Homem que faz a roupa?
2) Mais vale parecê-lo do que sê-lo?
3) Há algum traje obrigatório nos Estatutos da Ordem dos Advogados?
4) Um fato negro torna-nos mais inteligentes / competentes?
5) Oferecem subsídios para a aquisição do mesmo?
6) Não era suposto só as mulheres ligarem a roupa?

terça-feira, outubro 12, 2004

The Motorcycle Diaries

Não me deixo vencer pelo sono sem antes escrever umas linhas acerca do melhor filme que vi este ano.
O filme “Os Diários de Che Guevara” surpreende pela sua genuinidade, pela sua simplicidade e pelos seus retratos.
Não contemplamos somente a viagem de Ernesto Guevara de la Serna e Alberto Granado pela América Latina, mas sim o nascer de um homem, de um líder que marcou indiscutivelmente o sec.XX.
Uma fotografia exemplar, um retrato crú da América Latina que teimamos em não conhecer: aquela que não vive dos resorts , mas de vidas passadas de sol a sol ; aquela que permanece fiel ás suas origens, independente das invasões americanas; aquela que alberga um povo humilde mas orgulhoso do seu passado, que resiste ás intempéries com um sorriso no olhar e uma canção nos lábios.
Parabéns por uma banda sonora fantástica!
Parabéns por uma caracterização prodigiosa que nos faz recuar no tempo e sentir aquelas pessoas, aquelas dúvidas, aquelas dores, aquele pulsar de vida, aquele despertar de consciência que me abalou a alma e não me deixa dormir descansada caso não o partilhe com alguém...

Atenção à legenda! Zoom required


Unidentified man

domingo, outubro 10, 2004

Quando Agosto já só é uma miragem...


Ferraria, São Miguel, Açores



Ilhéu, Vila Franca do Campo, Açores

TVI proudly presents:




Longe vão os dias em que conseguia escrever todos os dias a um ritmo frenético... Afinal admito que é complicado manter um blog activo . Especialmente quando se trata de um esforço individual e solitário.
Enfim, queixumes á parte, prossigamos.

Nunca tive pretensões de ter um blog crítico, pleno de politiquices e criticismos, que não são próprios do meu feitio.
Mas desta vez não resisto a comentar essa fantástica fauna política , que nos tem alegrado os dias, qual circo de Natal em dias chuvosos.
Não resisto a citar um amigo meu, que reage com o seguinte comentário face à “censura maquilhada” do governo de Santana Lopes: “Queriam tirar os 45 minutos de antena que o Prof. Marcelo tinha aos domingos e o único que conseguiram foi dar-lhe esses mesmos 45 minutos de antena ,mas agora todos os dias, em todos os canais e em todos os telejornais.”
E não é verdade?
Não vejo muito televisão, mas a minha atenção ultimamente encontra-se concentrada na polémica Marcelista e a Quinta das Celebridades. No entanto, ainda não me consegui decidir quais os animais que me cativam mais: se os da quinta ou os do cenário político português.
Uppsss...se calhar é melhor moderar a linguagem, não vá o Diabo tecê-las e alguém alertar a Alta Autoridade para a Comunicação Social !!! ;)
Agora mais a sério...
Toda esta novela marcelista faz-me lembrar birras de irmãos ciumentos que clamam pela atenção do pai.
Por um lado temos um governo frio, integrado num mundo de políticos distantes e linguagens indecifráveis com os quais o cidadão normal não se identifica e não se relaciona .( O que vem inevitavelmente explicar as taxas de abstenção em Portugal.)
Por outro, um político/professor, que faz a ponte entre esse mundo inatingível e desacreditado da política e da governação, aproximando-o dos portugueses através da utilização de um discurso simplificado e apelativo, que o cidadão comum entende e com o qual se identifica.
Porquê mandá-lo “calar” e porque não aprender com ele?
Tanto berreiro para quê, se no fundo se trata apenas de um discurso? Um simples discurso, não mais, que na grande maioria dos casos é esquecido à segunda-feira...


quarta-feira, outubro 06, 2004

Cinema Paraíso


Cinema Paradiso

Como estava a dizer no post anterior… este foi um fim-de-semana de surpresas.
Há alguns anos atrás falaram-me de um filme mítico, que eu tinha obrigatoriamente que ver .
Chamava-se “Cinema Paraíso”, era italiano e realizado por Giuseppe Tornatore. Apenas aqui chegavam os meus conhecimentos acerca do filme.
Estava eu então naquela fase de puro fascínio por filmes comerciais, regados a coca-cola e pipocas , que na altura começavam a implantar-se nas salas de cinema portuguesas.
Não tentei alugar o filme, bem como a ele não assisti nas inúmeras vezes que passou na televisão.
Eis que um dia de verão chego a casa de uma amiga, que no meio de inúmeros DVD´s da família, sacou de lá esse filme, cujo nome me soava familiar.
Começamos a ver e marcou-me acima de tudo a música e a ternura de um menino ( Toto) , que cultivava uma paixão cega pelo cinema.
Ainda não foi nessa tarde que consegui finalmente assistir ao filme todo, porque era quase hora de jantar e pertenço a uma família tradicional, para quem a hora das refeições é verdadeiramente sagrada.
Á terceira foi então de vez!
Sábado à noite, o Canal Um passou o filme.
Diga-se que o fez a horas impróprias, o que já vem sendo hábito da televisão portuguesa, depois de nos ter intoxicado com novelas e programas humorísticos que apenas despertam lágrimas…DE DESESPERO!
E agora finalmente percebo o porquê de dizerem que se trata de um filme mítico. Bem ao meu gosto, trata-se de um filme simples, de gente e história simples, que nos comove do princípio ao fim com a ternura do enredo, despertando a nostalgia dos tempos passados.
Tudo isto tendo como cenário a história do cinema, onde as estrelas brilhavam de verdade e faziam brilhar aqueles que viviam, suspiravam e sonhavam com elas e os seus filmes.
Em suma, o Cinema Paraíso além de se tratar de um filme que marcou a história do cinema, ele mesmo traça essa mesma história, invocando nomes e momentos que a Humanidade não esquecerá.
Eu revi-me na história, ao sentir que para Salvatore ( Totó) o tempo passou a correr…da mesma forma que sinto o meu tempo fugir-me entre os dedos.
E subitamente apenas nos restam as memórias: para uns em suporte de papel, para outros em películas cinematográficas, mas para todos guardadas no coração.
Recomendo!

terça-feira, outubro 05, 2004



Este foi um fim-de-semana de pequenas, mas agradáveis, surpresas e descobertas.
Não aguentando mais a tormenta semanal do calor citadino, fugi para o meu refúgio algarvio.
Lado a lado com a costa vicentina, recupero energias e cores na praia da Cordoama, que por esta altura do ano está praticamente vazia.
Imaginem uma ligeira neblina, um mar agitado de diferentes tonalidades de azul , um areal imenso recortado por rochedos magnânimes e enigmáticos, que protegem do vento aqueles que se aventuram por estradas de terra batida e sinuosos caminhos para ali chegar .
Admito que a temperatura da água não é propriamente convidativa. Confesso que um sem número de vezes temo pela vida quando as vagas assumem proporções tais, que só os surfistas “locals” se aventuram.
Paradisíaco o momento em que encostamos a cabeça na areia, com os olhos semi-cerrados, e nada nos incomoda para além dos raios de sol que douram a pele...
É uma dádiva viver numa cidade a 2 horas e meia desta praia.
É um orgulho ter um património natural ainda tão intocado e virgem.
É um privilégio ainda ir á praia em Outubro.
É um milagre poder passar um dia na Praia da Cordoama e sentir que a tenho (quase) só para mim.

Praia da Cordoama, Vila do Bispo

Elogio

Parabéns à Inês Pedrosa, pela sua crónica “Um homem e uma mulher”, publicada na edição deste fim-de-semana do Expresso, na revista Única.
Há algum tempo que uma história simples não me fazia pensar tanto…

sexta-feira, outubro 01, 2004

Blogo, logo existo...

A que se deve o sucesso dos blogs?
Porque é que cada vez mais as pessoas escrevem, criam, recriam, inventam, partilham os seus próprios blogs?
O Jacinto Fermin diz que quem tem um blog é um egocêntrico, muito seguro de si, que não teme críticas ao que escreve ou á forma como o faz.
Discordo com ele. Não acho necessariamente que um acto de publicação e divulgação de obras literárias signifique necessariamente que o seu autor é um , utilizando a gíria, “convencido” egocêntrico.
É sim um entertainer, um criativo , que com as suas obras além de procurar respostas e reflexos nos seus leitores, também os entretém com os seus jogos de palavras, ideias e desabafos.
Não significa necessariamente que está seguro acerca do que escreve e da forma como escreve.
Antes pelo contrário...se tivesse certezas não sentia necessidade de escrever ou de publicar, porque no fundo quem escreve procura sempre algo: respostas, ecos, paralelismo, reconhecimento, racionalidade ou lógica.


O gosto da vitória...