domingo, novembro 14, 2004

As saudades que não sinto


Algo de muito estranho se deve passar comigo por não sentir saudades da faculdade.
A sério que não !
Trabalho mesmo ali ao lado do belo campus de Campolide, onde supostamente durante 5 anos vivi os melhores momentos da minha vida.
No entanto, cada vez que vislumbro a fantástica reitoria da Nova não sinto qualquer tipo de nostalgia.
Apenas recordo com alguma mágoa o que a construção daquela obra-prima da arquitectura provocou na minha vida estudantil: caos, desorganização, entrar nas aulas e em casa com os pés totalmente enlameados e as discussões sistemáticas com os seguranças que não me deixavam estacionar na faculdade:
- Bom dia, eu vou só buscar um certificado. Posso entrar?
- Então e o selo?
- Ah , é que eu acabei o curso a semana passada e venho só recolher o certificado das notas. Não pedi o selo para este semestre porque graças a Deus já não vou estar cá.”
- Pois...mas temos ordens expressas da Reitoria para só deixar entrar quem tem selo.
- Mas eu só me demoro 5 minutos. Mesmo! Além disso a secretaria está mesmo mesmo a fechar. Deixe-me lá entrar.
- Peço desculpa menina, mas ordens são ordens. Só pode estacionar quem tem selo.
- Mas eu já acabei o curso! Venho apenas buscar o certificado.
- É preciso o selo, já lhe disse.
Com menos conversa e já tinham passado 5 minutos.
Em suma, lá fui eu estacionar o carro no parque de terra batida, ao fundo da rampa da cabra Joana e no meio de carros abandonados já meio desmontados.
Subi a rampa a correr, cheguei à secretaria dois minutos antes da hora de encerramento, agarrei na certidão e lá fui esbaforida até ao carro com os nervos á flor da pele.
Outra situação muito agradável era o famoso DIA DA FACULDADE, quando nos proibiam de estacionar ás oito da manhã dentro do recinto do campus, porque ás oito da noite iria decorrer uma cerimónia .
Não fosse o Diabo tecê-las, o melhor era prevenir e guardar lugares para os convidados de honra. Que se lixem os estudantes.
Esta falta de ginástica mental deu-me cabo dos nervos!
Mas melhor do que isto só mesmo a feira de vaidades aquando da colocação dos resultados dos exames finais.
Sempre adorei aqueles que se insurgiam violentamente quando tinham 5.( note-se que a nota máxima na Faculdade de Direito da Nova é 6)
Transcendeu-me sempre a adulação servil de alguns alunos face a professores que nunca passaram disso mesmo.
Salvo honrosas excepções , um grande número deles são seres desfasados da vida real e das necessidades básicas com que passámos confrontados este último mês de Setembro quando começamos a trabalhar.
Seres estes que incutiram em alguns uma segurança e certeza que hoje se manifesta em arrogância e numa tremenda falta de humildade.
Mas quem me houve falar assim ( ou melhor, quem lê o que escrevo) vai pensar que aquilo foi um horror, quando na realidade esteve bem longe disso.
Simplesmente não foi marcante...
Nem para o bem, nem para o mal.
Foram cinco anos que passaram e que bem se passaram eles.
Se foram os melhores ou não só o tempo o dirá.
Mas não sinto saudades...saudades sinto de algo que perdi e, no que concerne a faculdade, como posso ter perdido algo se na realidade nunca ali senti qualquer sentimento de pertença?

sábado, novembro 13, 2004

Projectos e afins...


Para que nunca se possa dizer que estas ideias não existiram, que tal nunca foi por mim pensado e que as mesmas nunca foram objecto de desejo, cá vai uma lista de coisas que um dia gostaria de fazer:

1) viajar de Buenos Aires para Santiago do Chile, descer á Patagónia e Terra do Fogo e subir tudo até ao Perú
2) criar alicerces para um dia poder ir viver para Barcelona
3) fazer uma pós-graduação em História (também não me desagradava a ideia de ser uma pós-graduação em “estórias” !)
4) escrever para a Blue Travel
5) ter uma livraria-café
6) inscrever o Bush no Centro Helen Keller

A questão que ora se coloca, é saber se algum dia estes projectos passarão de o ser??!

Cairo 1929 - Paris 2004



É estranho ver desaparecer um ícone do nosso século.
A morte de Yasser Arafat deixou-me perplexa.
Não apenas devido a toda a “fantochada” que rodeou esse facto, as contradições e a falta de clareza relativamente às causas da sua morte, mas principalmente porque desapareceu para sempre uma imagem que pertenceu ao meu imaginário desde os tempos que a minha memória me permite alcançar.
Note-se que é incrível o reconhecimento global que Arafat teve, especialmente tendo em conta o seu passado terrorista.
Especialmente nos dias de hoje, que o terrorismo é um dos grandes , senão o maior, flagelo da humanidade.
Mas não é por isso que ele será recordado...
Aliás, as suas conexões terroristas quase que caem no olvido, ficando para sempre na memória a imagem de um homem que aceitou a paz, se predispôs a negociar e liderou com inteligência e bom senso.
Um homem que deu a conhecer ao mundo a causa palestiniana, que lutou por ideais, por uma causa em que verdadeiramente acreditava e que como ninguém espelhava o seu povo, as suas aspirações e as suas dores.
Um exemplo de que afinal ainda há líderes que representam a vontade do seu povo e não apenas dos lobbys que o colocaram no poder.

Kofi Annan: “For nearly four decades, he expressed and symbolized in his person the national aspirations of the Palestinian people".

quarta-feira, novembro 10, 2004

As eternas questões do meu quotidiano...

1) Porque é que quando o metro está a abarrotar há sempre umas pessoas simpáticas que encostam ao corrimão central e não deixam que os demais se agarrem durante a viagem?
2) Porque é que os funcionários públicos só complicam e estão sempre de mau humor se ás 16.30 terminam o dia de trabalho ao contrário do resto da população?
3) Porque é que as mulheres dizem sim quando querem dizer não?
4) Porque é que os homens , quando são ultrapassados na estrada, reagem como se a sua própria virilidade estivesse a ser posta em causa?
5) Porque é que é suposto toda a gente gostar de Kafka?
6) Porque é que quase nunca uma mulher cómica é simultaneamente sexy?
7) Porque é que o Euromilhões foi ganho por um espanhol e não por mim?
8) Porque é que a partir dos 40 anos a palavra “complicado” se torna o vocábulo mais utilizados no nosso vocabulário?
9) Porque é que a típica mulher portuguesa subitamente é loira e permanentemente bronzeada?






Boa Hora


Estavam todos sentados na primeira fila, observando ansiosamente os gestos mecânicos da juíza.
Para ela tratava-se de mais um dia...mais um igual a tantos outros.
Para eles , naquele dia, àquela hora, naquela sala, ditavam-se os seus futuros.
A juíza não se deixa comover... Esta cena repete-se inúmeras vezes ao longo do ano. Ás vezes até mais do que uma vez por dia.
Ela não via rostos, percursos de vida, historiais ou sequer os familiares e amigos que se amontoavam nos últimos bancos da sala.
No entanto são estes últimos que constituem a visão perturbadora.
Através da respiração ofegante e descontrolada denunciavam o nervosismo crescente.
Muitos tinham os dedos cruzados em gestos de oração.
Muitos comentavam com desdém e rancor aos comentários proferidos pelo advogados enquanto interrogavam os arguidos.
Mas todos eles sofriam, ainda que uns mais em silêncio que outros.
Não são dossiers...não são números, siglas, pessoas colectivas nem meras parcelas de uma estatística.
São pessoas como nós, como eu e como tu, numa situação onde qualquer um de nós pode um dia vir a estar.
No último banco estão pessoas fragilizadas, assustadas e em choque.
E para estes , naquele momento, o menos importante é saber se os do primeiro banco são inocentes ou não...

terça-feira, novembro 09, 2004

Huis clos


Jean Paul Sartre

Tous ces regards qui me mangent...Ha! Vous n´êtes que deux?Je vou croyais beaucoup plus nombreuses. Alors...c´est ça l´enfer. Je n´aurais jamais cru... Vous vous rappelez: le soufre, le bûcher, le gril...Ah!quelle plaisanterie. Pas besoin de gril: l´enfer c´est les Autres.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Um obrigada do tamanho do mundo!

Não consigo expressar muito bem o que sinto quando me escrevem a elogiar o blog.
Para quem ,como eu, quer viver das palavras, é um absurdo que de repente elas faltem ou me pareçam insuficientes para demonstrar aquilo que me vai na alma.
Resumidamente e de um modo simples ( como aliás já é hábito deste blog), agradeço a todos aqueles que vêm deixando os seus comentários, àqueles que me motivaram quando pensei em abandonar o projecto e àqueles que diáriamente perdem meia hora de trabalho a ler aquilo que apressadamente escrevo quase sobre o joelho ( sabe que nem ginjas não começar logo a trabalhar, não é?).
Fico mesmo muito contente por gostarem de visitar o meu mundo!






domingo, novembro 07, 2004

Gato Fedorento ao Vivo

Completamente caídos do céu ( ou melhor de um anjo chamado Joana...obrigada!), dois bilhetes para o espectáculo do Gato Fedorento ao Vivo ,vieram parar às minhas mãos ontem à noite.
Admito que sou bastante desconhecedora do programa de televisão, mas o blog é de facto de "partir o coco a rir".
Sem expectativas, sem conhecer 80% das piadas e de uma forma totalmente inesperada, dirigi-me ao Tivoli, onde sou surpreendida por uma multidão jovem e totalmente frenética para entrar na sala e assistir àqueles 4.
Foi assustador constatar que a maioria das pessoas ali presentes sabia de cor as piadas e eu não fazia a mais mínima ideia!
O meu irmão é fanático pelo Gato Fedorento e até me senti mal por ir eu e não ele.
Mas quaisquer dúvidas, cepticismos ou renitências ficaram em casa a partir do momento em que o espectáculo deu início.
Foram duas horas de genuinas gargalhadas, de um humor inteligente e apurado, de palhaçadas sem nexo e actores com um à vontade surpreendente, com textos bem escritos e de verdadeiro talento.
Adorei!
Pena que ontem foi o ultimo dia...mas não faz mal, na Tv há mais!








LISBOARTE

Ontem aproveitei relativamente bem o meu sábado.
Fiel ao lema de ser turista na minha cidade, a percurso cingiu-se à zona da Lapa , Santos e São Bento, tendo como paragens obrigatórias as galerias de arte e antiquários que povoam toda aquela zona.
Confesso que para mim a zona se Santos limitava-se, há alguns anos atrás, a uma zona de diversão noctívaga, onde a cerveja da Botica custava um euro e o vodca maçã do “Fluid” temperava (melhor, regava...) a ida até ao Lux.
No meio da passeata deparamo-nos com uma agradável surpresa.
A Associação Portuguesa das Galerias de Arte juntamente com a C.M.L organiza no âmbito do programa Lisboarte , visitas a diversas galerias, que nesses dias em que são visitadas, organizam beberetes e visitas guiadas, dando vida aos quadros expostos, que desta forma ganham nomes, vida e história.
Não sendo uma vasta conhecedora do mundo das artes, o facto de ter alguém a guiar-me na visualização das obras, faz-me compreender um pouco mais e avaliar o artista sob outra perspectiva, tirando-o do anonimato do meu cérebro.
A Lisboarte irá prolongar-se até Dezembro e para acompanhar as visitas estavam disponíveis autocarros que partiram do Museu da Cidade .
Uma vez que ainda resta um mês para o final desta iniciativa, recomendo vivamente este programa, mas não façam como eu e o Chinês que descobrimos tudo isto ao acaso e nos infiltrámos literalmente no grupo de cidadãos bem informados e interessados que previamente se haviam inscrito e organizado.
A minha inércia mental durante a semana não me permite andar tão actualizada como desejava... que bonita a vida de trabalhador...
Se ao menos os dias tivessem 48 horas...
Olhem, pelo menos o sábado não foi passado no Colombo!





quinta-feira, novembro 04, 2004

Eleições nos EUA


Se antes não tinha a certeza, agora não restam quaisquer dúvidas! O povo americano é sem dúvida alguma o povo mais imbecil que conheço.
Einmal ist keinmal, zweimal ist zu viel.
Não aprenderam da primeira (ou gostaram tanto dela), que não hesitaram em elegê-lo outra vez.
Não será estranho que o mundo inteiro se tenha demonstrado apreensivo e desiludido com o resultado destas eleições?
Não os fará pensar o facto de terem comemorado a vitória de Bush "orgulhosamente sós"?
God save America...And God save us all!

segunda-feira, novembro 01, 2004

Recordações dos anos 90...

Ontem, numa conversa com um sinistro sabor a Kebab, discuti com uns “recém amigos” o facto de hoje em dia praticamente não se fazer boa música.
Contam-se pelos dedos das mãos os álbuns que nos últimos 5 anos podemos considerar de qualidade.
Escasseiam cada vez mais os “grandes” concertos em estádios, realizados por grandes bandas que acabam por marcar não só um país, mas toda uma geração à escala mundial.
Uma grande banda não se limita apenas a arrastar multidões consigo, mas é aquela que produz espectáculos inesquecíveis ( jamais esquecerei U2 em Alvalade!) e que tem álbuns que se ouvem non stop ao longo dos anos sem que nunca nos fartemos.
Por exemplo, a geração do meu irmão, que é apenas 4 anos mais nova do que a minha, não viveu nada deste entusiasmo frenético dos grandes músicos, dos grandes nomes, dos espectáculos megalómanos.
Tiveram azar os coitados , que foram apanhados nas malhas da fast music: R & B made in the states, cantores de plástico, vozes computadorizadas e músicas fastidiosas que após um mês já não aguentamos ouvir.
Elevam-se as vozes contra a pirataria das músicas, contra mp3´s do kazaas, imesh, e B-tuga, mas sinceramente, quando julgo que um artista merece o esforço despendido, quando considero que se trata de uma obra de qualidade, não hesito em comprar o original.(Aliás, seria para mim um sacrilégio fazer cópia dos cd´s de certos autores.)
A conversa de ontem despertou em mim uma enorme nostalgia: do tempo em que a oferta de concertos em Portugal era escassa, mas na maioria dos casos de boa qualidade, da azáfama de comprar os bilhetes, do rumo nervoso a Alvalade com as sanduíches na mochila, o arrepio ao ouvir os primeiros acordes...
Graças a Deus que Janeiro está quase aí e os REM regressam...
Espero que Julho chegue rápido para ver os U2 novamente em Alvalade...
Agradeço ao Senhor pelo Super Bock e Sudoeste...