Voto não esclarecido
Será possível ter chegado ao ponto de desejar não votar em Lisboa?
Será possível ter chegado ao ponto de desejar não votar em Lisboa?
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Rit@
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12:28 da manhã
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Por vezes suspeito que Deus deve divertir-se à grande.
Imagino-o inteligente, mordaz e atento, agarrado à barriga num descontrolo de gargalhadas irónicas e ácidas.
O Deus em que acredito não nos criou, certamente, à sua imagem. As leis de mercado não permitem seres igualmente capazes e virtuosos.
Fez-nos, creio, mais tontos, mais ingénuos, menos sarcásticos e muito menos refinados.
E por isso se ri tanto: não connosco, mas sobre nós!
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Rit@
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12:15 da manhã
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Dia 24 de Agosto. Ao meio dia. No "El Prat".
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12:42 da manhã
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Pensar que se chegou a um punto em que "estar de férias" é sinónimo de regressar ao trabalho.
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12:17 da manhã
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Está toda a gente lá, excepto eu, perdida, voluntariamente, no mundo incompreensível da "common law".
E pensar que há dois anos atrás, a minha única preocupação era conseguir uma cerveja gelada e uma parcela de terreno menos sujo para me sentar...
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9:02 da tarde
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"If only God would give me a clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss Bank."
Woody Allen
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9:28 da manhã
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Há areia no elevador e a entrada do meu prédio cheira a protector solar Nívea.
Contudo, nos metros quadrados que me rodeiam, não houve, no dia de hoje, qualquer produção de melanina.
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Rit@
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9:32 da tarde
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O humor nos dias que correm. Aqui.
E aqui em casa...
E na biblioteca também...
E no final de contas...
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10:52 da tarde
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"Não acho normal. Achas normal ter que estudar a lei mexicana?"
"Não achas normal porquê? Segundo dizem, nós mexicanos temos uma das melhores Constituições do mundo."
"Sim, mas não vou estudar a vossa Constituição. Estou mesmo a falar da lei processual civil mexicana."
"Acho muito bem que a estudes.Tens que saber como funciona a tua profissão no meu país, como é que se resolvem os litígios..."
"Mas querido, todos sabemos que no México os problemas se resolvem com porrada!"
"Com porrada, não. Com dinheiro. Estamos muito mais civilizados!"
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11:21 da tarde
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Nunca consegui dissociar Sissi da Áustria dos filmes protagonizados pela actriz Romy Schneider.
De igual modo, nunca consegui abandonar a imagem que os meus livros de infância me transmitiam da menina feliz que passava os dias a cavalgar pelos campos da Baviera, na companhia do seu pai Maximiliano e dos seus irmãozinhos, igualmente virtuosos e loirinhos.
Porém, o mito em que vivia sofreu, ontem à noite, um pequeno abalo.
Minutos antes de sucumbir ao cansaço do dia, fui transportada do imaginário infantil, alimento de fantasias e equívocos históricos, para um relato mais adulto*, onde descubro que a princesa mais bonita da Europa (recorde-se, com a cara e figurinha de Romy Schneider) era caprichosa, emocionalmente atrofiada e bissexual.
Confesso que ainda permaneço em choque.
Rejeito os factos históricos.
Fico-me pela Romy Schneider.
* "Valsa Inacabada" de Cathérine Clement
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9:50 da manhã
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Não podemos aspirar a um mundo perfeito, mas podemos, legitimamente, aspirar a um mundo melhor.
A menina do café da minha rua personifica a esperteza saloia que nos caracteriza há séculos e, de forma quase que inocente e irreflectida, nos condena ao retrocesso social.
Tem boa saúde, boa aparência, doseia o volume de trabalho com intervalos de nicotina, uma filha a quem veste do bom e do melhor e um marido que trabalha com afinco mas cujo ordenado é magro demais para comportar as despesas excessivas da família.
O café da minha rua pertence à mãe da menina acerca da qual escrevo, endividada até à medula óssea e que, em momentos de tensão, não abdica de uma manicure francesa e de extensões de cabelo louras, pois “se não nos sentimos bem connosco, a coisa não se endireita”.
Orgulhosamente, a menina do café informa-me que está a receber subsídio de desemprego, pese embora receba, simultaneamente, o ordenado que a mãe lhe paga.
“Enquanto der, vou aproveitar”, diz ela enquanto eu, educadamente, finco as unhas nas palmas das mãos para me conter perante o anúncio de que aquela senhora, com quem partilho o café matinal está, afinal de contas, a defraudar o sistema e a roubar o dinheiro dos impostos e das contribuições que entrego ao estado.
A segurança social, brilhante instituição no acto de recepção das contribuições, mas meio amnésica no acto de retribuição, fecha os olhos à menina do café, aos seus ordenados, ilegalmente, cumulativos que no final do mês lhe aconchegam a conta bancária.
Ironicamente, em Aveiro, a reforma por invalidez não foi concedida a uma professora, vítima de leucemia que, perante esta decisão da Segurança Social e o facto de ter que comer ao final do mês, se viu obrigada trabalhar até à morte.
Não teremos chegado, pois, a um ponto em que a inércia e o conformismo são inaceitáveis?
Vivemos num país onde a baixa fraudulenta ocupa uma percentagem significativa da população, ironicamente, activa; onde a menina do café se orgulha de enganar esse ente estranho – o Estado – e onde a insuficiência económica é alegada de forma falsa e de ânimo leve.
Bebo o café e vejo a menina alegre que me comunica ter adquirido um novo carro.
Sorrio e afasto-me perplexa.
Sei que os meus impostos estarão, provavelmente, a contribuir para o bem-estar do agregado familiar dela, situação que, analisando bem as coisas, me conforta um pouco. Afinal, sei em que é que as minhas contribuições se consubstanciam: num relógio Calvin Klein no pulso da menina do café.
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Rit@
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9:27 da manhã
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