quinta-feira, julho 12, 2007

Voto não esclarecido

Será possível ter chegado ao ponto de desejar não votar em Lisboa?

Desconfianças

Por vezes suspeito que Deus deve divertir-se à grande.
Imagino-o inteligente, mordaz e atento, agarrado à barriga num descontrolo de gargalhadas irónicas e ácidas.
O Deus em que acredito não nos criou, certamente, à sua imagem. As leis de mercado não permitem seres igualmente capazes e virtuosos.
Fez-nos, creio, mais tontos, mais ingénuos, menos sarcásticos e muito menos refinados.
E por isso se ri tanto: não connosco, mas sobre nós!

quarta-feira, julho 11, 2007

O regresso da filha pródiga

Dia 24 de Agosto. Ao meio dia. No "El Prat".

Ironia

Pensar que se chegou a um punto em que "estar de férias" é sinónimo de regressar ao trabalho.

terça-feira, julho 03, 2007

Pequenos tormentos III (ou o estranho prazer do masoquismo)

Está toda a gente , excepto eu, perdida, voluntariamente, no mundo incompreensível da "common law".

E pensar que há dois anos atrás, a minha única preocupação era conseguir uma cerveja gelada e uma parcela de terreno menos sujo para me sentar...

Pequenos tormentos II

"If only God would give me a clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss Bank."

Woody Allen

sábado, junho 30, 2007

Pequenos tormentos I


Há areia no elevador e a entrada do meu prédio cheira a protector solar Nívea.
Contudo, nos metros quadrados que me rodeiam, não houve, no dia de hoje, qualquer produção de melanina.

sexta-feira, junho 29, 2007

I feel numb

O humor nos dias que correm. Aqui.
E aqui em casa...
E na biblioteca também...
E no final de contas...

segunda-feira, junho 25, 2007

Comparative law

"Não acho normal. Achas normal ter que estudar a lei mexicana?"
"Não achas normal porquê? Segundo dizem, nós mexicanos temos uma das melhores Constituições do mundo."
"Sim, mas não vou estudar a vossa Constituição. Estou mesmo a falar da lei processual civil mexicana."
"Acho muito bem que a estudes.Tens que saber como funciona a tua profissão no meu país, como é que se resolvem os litígios..."
"Mas querido, todos sabemos que no México os problemas se resolvem com porrada!"
"Com porrada, não. Com dinheiro. Estamos muito mais civilizados!"

Leitura de cabeceira





Nunca consegui dissociar Sissi da Áustria dos filmes protagonizados pela actriz Romy Schneider.
De igual modo, nunca consegui abandonar a imagem que os meus livros de infância me transmitiam da menina feliz que passava os dias a cavalgar pelos campos da Baviera, na companhia do seu pai Maximiliano e dos seus irmãozinhos, igualmente virtuosos e loirinhos.

Porém, o mito em que vivia sofreu, ontem à noite, um pequeno abalo.

Minutos antes de sucumbir ao cansaço do dia, fui transportada do imaginário infantil, alimento de fantasias e equívocos históricos, para um relato mais adulto*, onde descubro que a princesa mais bonita da Europa (recorde-se, com a cara e figurinha de Romy Schneider) era caprichosa, emocionalmente atrofiada e bissexual.

Confesso que ainda permaneço em choque.

Rejeito os factos históricos.

Fico-me pela Romy Schneider.


* "Valsa Inacabada" de Cathérine Clement

sexta-feira, junho 22, 2007

Verão




No Verão, todos ficamos mais bonitos...





quarta-feira, junho 20, 2007

Não podemos aspirar a um mundo perfeito, mas podemos, legitimamente, aspirar a um mundo melhor.

A menina do café da minha rua personifica a esperteza saloia que nos caracteriza há séculos e, de forma quase que inocente e irreflectida, nos condena ao retrocesso social.

Tem boa saúde, boa aparência, doseia o volume de trabalho com intervalos de nicotina, uma filha a quem veste do bom e do melhor e um marido que trabalha com afinco mas cujo ordenado é magro demais para comportar as despesas excessivas da família.

O café da minha rua pertence à mãe da menina acerca da qual escrevo, endividada até à medula óssea e que, em momentos de tensão, não abdica de uma manicure francesa e de extensões de cabelo louras, pois “se não nos sentimos bem connosco, a coisa não se endireita”.

Orgulhosamente, a menina do café informa-me que está a receber subsídio de desemprego, pese embora receba, simultaneamente, o ordenado que a mãe lhe paga.

“Enquanto der, vou aproveitar”, diz ela enquanto eu, educadamente, finco as unhas nas palmas das mãos para me conter perante o anúncio de que aquela senhora, com quem partilho o café matinal está, afinal de contas, a defraudar o sistema e a roubar o dinheiro dos impostos e das contribuições que entrego ao estado.

A segurança social, brilhante instituição no acto de recepção das contribuições, mas meio amnésica no acto de retribuição, fecha os olhos à menina do café, aos seus ordenados, ilegalmente, cumulativos que no final do mês lhe aconchegam a conta bancária.

Ironicamente, em Aveiro, a reforma por invalidez não foi concedida a uma professora, vítima de leucemia que, perante esta decisão da Segurança Social e o facto de ter que comer ao final do mês, se viu obrigada trabalhar até à morte.

Não teremos chegado, pois, a um ponto em que a inércia e o conformismo são inaceitáveis?

Vivemos num país onde a baixa fraudulenta ocupa uma percentagem significativa da população, ironicamente, activa; onde a menina do café se orgulha de enganar esse ente estranho – o Estado – e onde a insuficiência económica é alegada de forma falsa e de ânimo leve.

Bebo o café e vejo a menina alegre que me comunica ter adquirido um novo carro.

Sorrio e afasto-me perplexa.

Sei que os meus impostos estarão, provavelmente, a contribuir para o bem-estar do agregado familiar dela, situação que, analisando bem as coisas, me conforta um pouco. Afinal, sei em que é que as minhas contribuições se consubstanciam: num relógio Calvin Klein no pulso da menina do café.