quarta-feira, janeiro 11, 2006

Maria Rita a cirandar










Ter o dom de cantar bem é um privilégio que algumas pessoas têm.
Porém, tratando-se de encantar, a coisa complica-se.
De que serve uma boa voz, um bom arranjo musical ou uma composição perfeita, se no momento do concerto a ligação com o público não se estabelece?
Neste raciocínio incluo todos os tipos de música, desde o rock ao grunge, do heavy metal à electrónica.
Não esqueçamos que não são necessariamente as palavras do artista que criam laços com o público, mas sim a sua capacidade de sentir o que os seus espectadores esperam de si e dar-lhes exactamente isso, sem que estes o induzam, sem que estes o imponham.
E é nesta surpresa que se dá a aproximação/identificação que, no final do concerto, nos faz partir para casa satisfeitos e a gostar cada vez mais do artista em causa. (Triste é quando isto não sucede e, desiludidos, apenas nos sentimos “massificados” e descaracterizados por um artista que nunca chega a sê-lo.)
Esta é a segunda vez que dedico um post a Maria Rita e ontem foi a segunda vez que assisti a um concerto seu.
A sala escolhida foi o Coliseu, tão imperfeita em tantos aspectos, mas tão capaz de gerar ambientes acolhedores e intimistas.
O público era civilizado, como já se esperava num concerto destes.
Chegaram em cima da hora, ordenados e de movimentos cortados pelo frio.
Aos primeiros acordes ainda não abanavam os ombros , nem se deixavam levar ao ritmo do contrabaixo.
Foi então que ela falou.
Em tom confessional falou-nos da sua vida, do seu percurso, da sua preferência pela primeiro álbum ( e minha, confesso!) e , como não poderia deixar de ser, relembrou-nos o quão especial é estar de regresso a Portugal.
Tudo isto encontramos em muitos concertos que por aqui passam.
Mas M. Rita tem qualquer coisa de cativante e acolhedor que nos faz sentir em casa.
Uma expressão corporal magnifica dá forma às letras das suas canções, com as quais nos identificamos tão facilmente e errónea ou inocentemente chegamos a acreditar que foram criadas a pensar em todos e em cada um de nós.
O concerto acabou com o tão disciplinado público a dançar; liberto da tensão e do frio iniciais, em clima de festa com aquela brasileira pequenina rodeada de músicos fantásticos que, segundo disseram, mais do que a trabalhar, estavam ali a divertir-se e a plateia correspondeu.
E assim se aprende que para se ser um verdadeiro cantor não basta saber cantar: mais do que isso, há que saber encantar!

1 comentário:

sara disse...

Rendi-me à Maria Rita no concerto do Pav Atlântico (mesmo aqui consegui encantar). Até aí, estava embrulhada no preconceito, na ideia de que tentava imitar a mäe e, pior, aproveitar-se disso para vender. Como tu, nessa noite fiquei fascinada com a expressäo corporal, com a maneira como "representa as músicas" que canta. Fiquei fascinada com a Maria Rita. Decidi que era a mulher mais bonita do momento. E nunca mais pensei na Elis ao mesmo tempo. Ontem e hoje... estou só invejosa de näo estar por aí para a ver e ouvir...