terça-feira, janeiro 30, 2007

Um brinde à Nação



Mais um email, um slogan de inteligência duvidosa, uma marcha, caminhada ou peladinha de futebol pela vida, uma cruz ao pescoço, um apelido pomposo ou uma fadista pseudo-beta a gritar pela vida embrionária e juro que emigro.

Quando um referendo ganha contornos de fanatismo, de sentimentos clubísticos ou bairristas, quando a aparência vence a razão, quando a mente e a visão entorpecidas clamam por valores que não se defendem mas parecem bem, salta-me o verniz e agarro o passaporte.

Bem aventurados os que não tentam ser pudicos e politicamente virtuosos.

Louvo-lhes a inteligência porque, mais contidos e, talvez, calculistas, durante todo este período que antecede o referendo, estão a conseguir transmitir uma posição mais tolerante no que concerne ao tópico que apaixona mais as gentes de cá do que o entediante Boavista- Sporting.

Repare-se no ponto de partida deste referendo: uma opção, utopicamente, política que, na linha de raciocínio dos defensores do NÃO, pretende educar ou restringir as opções morais dos portugueses que, na sua maioria, despreocupados e irresponsáveis, dão preferência às novelas da TVI e sabem que há sempre um “jeitoso” que resolverá uma situação mais delicada.

Tal como nas doenças, têm consciência de que o azar só bate à porta do vizinho e que, desde que se seja esperto, com ou sem lei, o “desmancho”, se tiver que ser, faz-se.

Por outro lado, a máquina governativa, num esforço hercúleo de agradar a gregos e troianos , repete o referendo, na senda do erro cometido em 1998.

Sócrates, despe-se das vestes de Primeiro Ministro e sai à rua, apoiando o movimento “Sim”, abandonando o mito de que os líderes devem ser, no mínimo, isentos e contidos.

A apimentar ainda mais o cenário de guerra, Gentil Martins pede a condenação das mulheres que praticam o aborto, como se de jogging se tratasse e o acto em si não fosse punitivo o suficiente e as ameaças católicas de excomungação daqueles que votarem “Sim”.

Prozac e Xanax vendem-se às centenas, Vanessas e Joanas enchem as manchetes, os emails são entupidos com habeas corpus leigos em prol do Sargento de Torres Novas e o país, em surdina e cheio de orgulho, prepara-se para eleger Oliveira Salazar como o melhor português de todos os tempos.

Refira-se, porém, que esta última situação, contrariamente às restantes, não choca, pois nada mais é do que um resultado inevitável do atrofio mental e cultural a que tal líder nos condenou.

Um brinde à honrosa nação!

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